VALE do SER – POST II

Dando prosseguimento às postagens do Jantar Concerto Tamburilante no Vale do Ser em novembro de 2015 no Morro Reuter (RS), segue aqui outra canção apresentada no repertório: a KOTHBIRO, canção tradicional Luo registrada originalmente pelo músico e compositor kenyano AYUB OGADA, arranjada por mim no formato Violão com Voz inicialmente para violão de seis cordas e posteriormente para Violão de 7 com Voz. As primeiras notas executadas no violão e na gravação original de Ogada sugerem o som das gotas da chuva chegando. A canção consta também na trilha sonora do filme “O jardineiro fiel” (2005).

Kothbiro significa “a chuva está chegando” em linguagem Luo.

Ayub Ogada, o artista que interpreta esta canção, nasceu no abrigo de uma família pertencente ao povo Luo do Kênya. Por intermédio de uma cultura musical transmitida oralmente geração a geração aprendeu a tocar Nyatiti, uma espécie de lira de oito cordas executada de forma “pinçada” ou arpejada,

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Nyatiti

e o Djembe, instrumento de percussão de mão muito comum na África negra.

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Djembe

A canção é de uma melodia tradicional Luo cantada quando as tempestades vêm. No Kênya é raro chover, e a água é um acontecimento. Esta canção diz às crianças que a chuva está chegando e todos devem proteger o gado que é a riqueza da família, por isto então cantam. Elas aprendem através da música o que fazer, porque muitas nunca viram chuva ainda e não sabem o que isso significa.

Em algumas formas de tradição africana o conhecimento é transmitido subjetivamente através da música. Em sociedades com nenhuma escola, onde a educação através das famílias é vivida e perpetuada pela transmissão oral, as músicas contêm pequenas pérolas de sabedoria que ajudam as crianças a entender e aprender sobre o dia-a-dia.

Assim, a partir de uma experiência física (ação) que se sente através de uma melodia e uma letra (emoção) é compreendido em profundidade o que aconteceu e acontece (mente), produzindo, assim, um aprendizado.

A beleza da música tradicional reside na sua transmissão de valores sociais e educativos. Seu uso se dá nos ​​momentos diários, no trabalho e nas relações sociais. No Brasil em algumas regiões onde a tecnologia é bastante longínqua ainda se preservam estas tradições de oralidade. De um modo geral este uso da oralidade se perdeu bastante no Ocidente onde a música deixou de ter uma função social e cultural e se transformou em objeto de consumo.